
20 de outubro de 2026
Se você cresceu no Brasil há alguns anos, provavelmente se lembra dela.
Uma gotinha na boca, campanhas de vacinação e um personagem que se tornou conhecido por gerações: o Zé Gotinha. A vacinação contra a poliomielite fez parte da infância de milhões de brasileiros e ajudou a mudar completamente a história da doença no país. O último caso brasileiro provocado pelo poliovírus selvagem aconteceu em 1989, na Paraíba. Desde então, a vacinação continua sendo mantida justamente para impedir que o vírus encontre novamente uma população vulnerável.
No dia 24 de outubro é celebrado o Dia Mundial de Combate à Poliomielite, surge então uma pergunta interessante:
se quase ninguém das novas gerações conhece alguém que teve pólio, por que ainda precisamos vacinar contra ela?
A poliomielite, conhecida também como paralisia infantil, é uma doença infecciosa causada pelo poliovírus. A maioria das pessoas infectadas pode apresentar poucos sintomas ou até passar pela infecção sem perceber. Em uma pequena parcela dos casos, porém, o vírus pode atingir o sistema nervoso e provocar paralisia.
A doença ficou marcada historicamente justamente pelas consequências que essas formas graves deixavam, principalmente em crianças. Não existe um tratamento capaz de reverter uma paralisia já instalada pela poliomielite. A principal ferramenta para evitar a doença é a vacinação.
Não foi porque o vírus simplesmente deixou de existir. Foi resultado de décadas de vacinação em larga escala, vigilância epidemiológica e campanhas capazes de alcançar milhões de crianças.
A vacina oral contra poliomielite, a famosa gotinha, teve um papel fundamental nesse processo. As campanhas nacionais ajudaram o Brasil a interromper a circulação do poliovírus selvagem, e o último caso registrado no país aconteceu em 1989.
Para quem nasceu depois disso, a poliomielite pode parecer uma doença muito distante.E esse é justamente um dos grandes paradoxos da vacinação: quanto melhor uma vacina funciona, menos enxergamos a doença que ela previne.
O Brasil eliminou a poliomielite, mas o mundo ainda não conseguiu erradicá-la. Eliminar significa interromper a circulação de uma doença em determinada região. Erradicar significa interromper sua circulação em todo o planeta.
Em 2026, a Organização Mundial da Saúde ainda registrava circulação de poliovírus selvagem tipo 1 em países como Afeganistão e Paquistão, além de acompanhar detecções e surtos relacionados a poliovírus em diferentes regiões do mundo.
Enquanto o vírus continuar existindo em algum lugar, deslocamentos internacionais podem permitir sua introdução em países onde a doença já foi eliminada. É por isso que manter a população protegida continua sendo tão importante.
Uma doença não precisa estar circulando diariamente no país para representar risco. Se o vírus for introduzido em uma população com muitas pessoas sem proteção, ele encontra espaço para voltar a se espalhar.
Por outro lado, quando a cobertura vacinal permanece elevada, existem menos pessoas suscetíveis e fica muito mais difícil estabelecer novas cadeias de transmissão. O Ministério da Saúde mantém justamente o alerta para o risco de importação de poliovírus de locais onde ainda existe circulação e reforça a necessidade de vigilância e manutenção da proteção da população.
Ou seja: não continuamos vacinando porque a estratégia falhou. Continuamos vacinando porque ela funcionou.
Ela cumpriu um papel histórico, mas o calendário brasileiro mudou.
Em novembro de 2024, o Brasil deixou de utilizar rotineiramente a vacina oral contra poliomielite (VOP) e passou a adotar um esquema composto exclusivamente pela Vacina Inativada Poliomielite, a VIP, que é injetável.
A mudança acompanhou o processo mundial de erradicação da doença e substituiu os reforços que anteriormente eram administrados por via oral. Mas o calendário teve uma nova atualização em 2026.
Desde 3 de agosto de 2026, o Calendário Nacional passou a incluir também um segundo reforço da VIP aos 4 anos.
Assim, o esquema infantil atual é formado por:
2 meses: primeira dose;
4 meses: segunda dose;
6 meses: terceira dose;
15 meses: primeiro reforço;
4 anos: segundo reforço.
Todas são realizadas com a vacina inativada poliomielite, a VIP. Isso significa que a gotinha saiu do calendário de rotina, mas a proteção contra a poliomielite continua.
E ganhou, em 2026, um novo reforço.
Não. A mudança do calendário não apaga as doses corretamente realizadas anteriormente.
A caderneta deve ser avaliada considerando as vacinas já recebidas, a idade da criança e as recomendações atuais. Por isso, famílias com crianças que passaram pela transição entre o esquema antigo e o atual não precisam tentar reconstruir o calendário por conta própria.
A avaliação da caderneta permite identificar se existe alguma dose ou reforço necessário.
Para muitas famílias brasileiras, a poliomielite hoje existe apenas nos livros, nas histórias de outras gerações ou nas antigas campanhas de vacinação.
Isso é uma conquista.
Mas é também um lembrete de que doenças controladas não permanecem distantes sozinhas. A vacinação transformou a pólio de uma ameaça presente para uma doença que grande parte das crianças brasileiras nunca viu. Manter essa proteção é parte do que permite que continue assim.
Neste Dia Mundial de Combate à Poliomielite, vale abrir a caderneta das crianças e conferir especialmente uma novidade de 2026: o reforço da VIP aos 4 anos.
Na Nina Saúde, acreditamos que lembrar da história da vacinação também ajuda a entender por que continuamos nos protegendo hoje.
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